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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os pais franceses não parecem ansiosos para que os filhos se adiantem. Não os forçam a ler, nadar nem fazer problemas de matemática antes da hora. Não tentam transformá-los em prodígios. Não tenho a impressão de que, secretamente ou não, estamos todos em uma corrida para ganhar um prêmio não revelado. Eles os matriculam em aulas de tênis, esgrima e inglês. Mas não exibem essas atividades como provas de serem bons pais. (...) Na França, o objetivo de matricular uma criança em uma aula de música no sábado de manhã não é para ativar uma rede neural. É para diversão.

Pamela Druckerman: Crianças francesas não fazem manha, p.88.

quinta-feira, 5 de maio de 2011


"A experiência não tem valor ético. É somente o nome que os homens dão a seus erros. Os moralistas a apreciam, de ordinário, como uma forma de aviso; reclamaram para ela uma eficácia ética na formação dos caracteres; elogiam-na como qualquer coisa que nos ensinasse o que cumpre fazer-se e o que convém evitar-se. Não existe, porém, poder algum ativo na experiência. Ela é uma coisinha móvel como a própria consciência. Tudo quanto está verdadeiramente demonstrado é que o nosso futuro poderá ser o que foi o nosso passado e que o pecado, em que uma vez caímos com desgosto, nós o cometeremos ainda muitas vezes, e com prazer."


Lorde Henry em "O Retrato de Dorian Grey", de Oscar Wilde.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

sábia martha

"... lucidez nada mais é que interromper a busca pela compreensão absoluta de tudo que nos cerca e aceitar que a vida não vem com manual de instruções." 

Martha Medeiros em Fora de Mim.

domingo, 23 de janeiro de 2011



"Reconheço plenamente que a cerimônia é essencial para os seres humanos: é um círculo que desenhamos em torno de fatos importantes para separar o grandioso do ordinário. E o ritual é um tipo de cinto de segurança mágico que nos guia de um estágio a outro da vida, assegurando que não vamos tropeçar nem nos perder no caminho." 

Elizabeth Gilbert em Comprometida, p.209

terça-feira, 13 de julho de 2010

Quadrilha

Quando era mais nova, Queila tinha uma amiga que tinha vários primos então interessantes, dos quais ela ficou com dois, ficou na vontade com um e outro ficou na vontade com ela, este último, o João. Queila até ficou tentada a ceder aos encantos de João, mas a verdade é que ela achava que ele não tinha lá muitos encantos... Mas até que ele tinha uns amigos encantados! A danada da Queila ficou com um deles uns anos mais tarde e gamou, mas aí foi ele que não gamou nela... Mais uns aninhos depois, a Queila gamou muito no Lázaro que hoje não é amigo, mas cunhado do João, veja só! E hoje Queila encontra sempre a esposa do João, irmã do Lázaro, que não sabe da missa o terço! E outro dia Queila foi novamente apresentada a João, que hoje é rapaz importante e, rindo por dentro, soltou um te conheço de algum lugar sob um olhar meio surpreso. Será que ele lembrou?


Quadrilha
(Carlos Drummond de Andrade)
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história

domingo, 9 de agosto de 2009

"Ele esperou no lado de fora do berçário e quando ela levou o bebê para perto do vidro, Michael ficou chocado com a feiúra dele: olhos que eram como dois cortes finos e vermelhos e o nariz largo e chato. Como vou poder amá-lo? - pensou ele. O bebê bocejou mostrando as gengivas cor de rosa, começou a chorar e ele o amou."


Feliz dia dos pais!!!

* trecho do livro O Rabino de Noah Gordon

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Parêntese para uma reflexão


Hoje eu estava ouvindo o "Sintonia" da Rádio Metrópole, que é um programa sobre espiritismo que geralmente ouço quando estou no trânsito e Medrado, o comentarista que esclarece as dúvidas dos ouvintes, fez uma observação que me chamou muito a atenção e com a qual eu concordo inteiramente! [e isso não é uma desculpa pela ausência do hábito diário de rezar, até porque, embora eu não reze todos os dias, sempre me lembro de agradecer a Deus - o que, para mim, é mais importante do que pedir]

Pois bem. Disse ele que rezamos porque, na verdade, não somos assim tão convictos de nossa fé. Pois se assim o fôssemos, saberíamos que Deus tudo vê e que nada acontece sem a sua onisciência, de modo que a oração é mais uma fonte de inspiração que buscamos para nós mesmos. Assim não fosse, partiríamos do pressuposto que Deus só olharia por quem reza e, se assim fosse, por isso mesmo não seria Deus.

Fantástico, não é? Eu achei!

segunda-feira, 7 de maio de 2007

porque hoje é segunda-feira...

O que quer que você possa fazer ou sonhar, comece agora.
A coragem tem força poder e magia.
(Goethe)

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

como sou feliz, quero ver feliz quem andar comigo...


Eu tenho um compromisso com a felicidade. O meu caminho possui pedras como o de todo mundo, mas não sou do tipo que procura cabelo em ovo ou chifre em cabeça de cavalo. Os meus problemas resolvo comigo mesma e com quem disser respeito. Essa convicção vem ainda mais reforçada em 2007 e acho que todo mundo devia fazer isso: esclarecer, descomplicar, dialogar, se preocupar mais com a sua vida e menos com a dos outros, semear a paz ao invés da discórdia

Seguem, nesse esteio, dois valorosos conselhos do Dr. Drauzio Varella:


Se não quiser adoecer - "Fale de seus sentimentos"

Emoções e sentimentos que são escondidos, reprimidos, acabam em doenças como: gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna. Com o tempo a repressão dos sentimentos degenera até em câncer. Então vamos desabafar, confidenciar,partilhar nossa intimidade, nossos segredos, nossos pecados. O diálogo, a fala, a palavra, é um poderoso remédio e excelente terapia.

Se não quiser adoecer - "Confie"
Quem não confia, não se comunica, não se abre, não se relaciona, não cria liames profundos, não sabe fazer amizades verdadeiras. Sem confiança, não há relacionamento. A desconfiança é falta de fé em si, nos outros e em Deus.

Graças a Deus, nessa tarefa e nessa busca, eu tenho um amor maduro:

O amor maduro tem e quer problemas, sim, como tudo.
Mas vive dos problemas da felicidade.
Problemas da felicidade são formas trabalhosas de construir o bem, o prazer.
Problemas da infelicidade não interessam ao amor maduro.
Na felicidade está o encontro de peles, o ficar com o gosto da boca e do cheiro do outro - está a compreensão antecipada, a adivinhação, o presente de valor interior, a emoção vivida em conjunto, os discursos silenciosos da percepção, o prazer de conviver, o
equilíbrio de carne e de espírito.
(Arthur da Távola)
Salve o novo ano!!! Agora é brincar de viver!!

domingo, 8 de outubro de 2006

Eu não queria fazer disso aqui palanque político, mas não consigo ficar alheia a tudo. Não consigo não me indignar e ver pessoas falando sem conhecimento de causa, sem saberem o que dizem, apenas engolindo tudo que a Rede Globo empurra goela abaixo (olhe que eu até gosto da rede globo...)

Mas no meio de tantas insanidades e incoerências que tenho visto e lido por ali, achei essa pérola que é o texto do Leonardo Boff. Mandei para alguns amigos pelo e-mail porque acho que, enfim, alguém tocou no ponto fundamentalmente diferencial entre os dois candidatos à presidência: o Estado neo-liberal x a República social (não necessariamente socialista).

Basta saber como seres humanos, o que desejamos para a sociedade em que vivemos e viveremos não para interesses e conveniências individuais.

Falhas todos temos, ideologia, não! Antes de decidir, vamos lançar um olhar multi-focal sobre a história!

O que está em jogo na reeleição presidencial

Leonardo Boff


Quem derrotou Lula não foi Geraldo Alckmin mas o próprio partido do Presidente, o PT. O destemor insano de altos dirigentes petistas pôs a perder uma vitória garantida de Lula já no primeiro turno. O que pesou mesmo não foi tanto o escândalo do dossiê contra o candidato Serra, pois dossiês sempre existiram, fabricados por políticos afeitos à intimidação e ao manejo da mentira como arma política. A ausência de Lula no debate final contou negativamente mas não foi o decisivo. O que destroçou o PT e atravancou o caminho da vitória foi a mostragem por todos os meios de comunicação da montanha de dinheiro para a compra do dossiê. Mais de 30% da população trabalhadora não ganha mais que um salário mínimo. Quando vê toda essa dinheirama se enche de auto-vergonha e pensa: meu trabalho não vale nada mesmo; nem que vivesse duas vidas acumularia tanto dinheiro quanto aquele mostrado ai. E esses corruptos tiraram de onde esse dinheiro? A indignação não tem tamanho. Políticos que usam esses expedientes mereceriam a excomunhão política e religiosa, tão grande é seu pecado contra o povo, sua dignidade e a economia popular.

Pode ocorrer um impasse jurídico, policial e institucional nas investigações do dossiê, especialmente se seu conteúdo for revelado, coisa que ainda não se fez e que pode eventualmente incrimiar a gestão do PSDB quando começou a corrupção das ambulâncias. Mesmo assim o segundo turno traz também lá a suas vantagens: finalmente se criará a oportunidade de confrontar dois projetos de Brasil.

Geraldo Alckmin representa o velho projeto das classes dominantes. Não sem razão os banqueiros e os grandes industriais o apoiaram, pois sentem afinidade de classe e comunhão de propósitos: garantir políticas ricas para os ricos e pobres para os pobres. Notoriamente não possui carisma e não apresenta nada de realmente inovador, capaz de suscitar uma nova esperança. A retórica que usa é despistadora. Mas cabe à análise pôr à luz os interesses de classe ocultos. A macroeconomia que enfeudou a política, seguirá seu curso neo-liberal deixando fatalmente anêmica a política social. Sua vitória representará o retorno daqueles que sempre construiram um Brasil para si, sem o povo ou contra o povo.
Lula dá corpo a um projeto de mudança. Apesar dos constrangimentos encontrados num ambiente hegemonicamente neo-liberal, tentou, com relativo sucesso, fazer a transição de um estado elitista e privatista para um estado republicano e social. Agora ele se vê obrigado a definir claramente seu projeto: dar a centralidade ao povo destituido, garantir seus meios de vida e sua inclusão cidadã. Para isso ele precisa se reaproximar de sua base real de sustentação: os movimentos sociais organizados e a imensidão dos excluidos. Esses poderão inviabilizar qualquer ameaça de impeachment. Tirar Lula é tirar nosso poder, dirão, é anular nossa vitória, é abortar nossa esperança.


Para se diferenciar claramente de Alckmin, Lula deverá mexer em pontos importantes da macroeconomia para que ela seja de fato o sustentáculo de uma política social maciça. Deverá ter a coragem de colocar um gesto fundador de um novo Brasil: retomar o projeto de Plínio Arruda Sampaio, um dos que melhor entende de reforma agrária, e realizá-lo integralmente a fim de fixar o camponês no campo e desinchar as cidades favelizadas. Ai sim se consolidará seu governo, inaugurando a transformação social possível para o Brasil.


segunda-feira, 15 de maio de 2006

domingo, 30 de outubro de 2005

Amo Drummond!

"Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer,
Amar e malamar,
Amar e desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?"

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Soneto de Separação

Hoje pensei muito nesse poema, mas, na verdade, acho que foi muito mais pelo jogo de palavras do que pelo conteúdo mesmo:

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(Vinícius de Moraes)

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Queria saber descrever ou mesmo entender o que estou sentindo. Um vazio, é verdade, mas ao mesmo tempo, com o que preenchê-lo?? Drummond, que eu amo, já disse: “não existe falta na ausência, a ausência é um estar em mim”.
Vem-me à cabeça também a música do Skank: “sinto sua falta, não posso esperar tanto tempo assim”, mas, na verdade, não estou esperando, mas, “me sinto só, me sinto só, me sinto tão seu...”
Nessa fase fossa, a música sempre nos acompanha. Tirei do baú: “vamos ser outra vez nós dois, vai chover pingos de amor...” Lá no íntimo sinto falta de ser outra vez nós dois mas não sinto no momento o desejo de ser outra vez nos dois, sei lá! Dá pra entender???
O que adotei mesmo foi o poema Memória do meu tão querido autor supracitado, ele tem me acompanhado intimamente e de forma contundente:

Amar o perdido
deixa confundido
este meu coração.
Nada pode o ouvido
contra o sem sentido
apelo do não
.
As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão,
mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
estas ficarão
.

terça-feira, 31 de maio de 2005

Martha Medeiros, once more!

Já falei aqui antes da Martha Medeiros, uma escritora gaúcha de quem gosto muito. Qual não foi a minha alegria quando ganhei de aniversário um livro seu de crônicas. Já terminei de ler há uns 10 dias e durante a leitura fui fazendo orelhinhas em algumas páginas que me chamavam a atenção. Eis aqui trechos de duas crônicas que amei:

Os inimigos da verdade

E seguimos nós: não sou mulher disso, não sou homem daquilo, nasci pra ser mãe, não nasci pra casar, eu me garanto, eu sei de tudo, aquele ali não presta, aquela outra não vale nada, só quem dá duro é que vence na vida, só os trouxas que se matam trabalhando, não preciso de terapia, não vivo sem terapia, nasci pra brilhar, tudo dá errado pra mim: e todos têm certeza do que estão dizendo – certeza absoluta.
Alguém tem lá certeza absoluta do que quer que seja? Somos todos novatos na vida, cada dia é uma incógnita, podemos ser surpreendidos por nossas próprias reações, repensamos mil vezes sobre os mais diversos temas: as ditas “certezas” apenas são escudos que nos protegem das mudanças. Mudar é difícil. Crescer é penoso. Olhar para dentro de si mesmo, profundamente, é sempre perturbador.
Não somos todos iguais como damos a entender. Mas vivemos todos de um jeito muito parecido. É mais fácil se manter integrado, é mais seguro saber direitinho quem se é e o que se quer da vida. Eu nunca vou fazer isso, eu jamais terei coragem de fazer aquilo: será mesmo? Quanto medo das nossas capacidades. Melhor adotar meia dúzia de convicçõesassim fica mais fácil manter o rumo. Que pode ser o rumo da verdade, mas também da mentira.

Nesta outra crônica ela faz uma analogia entre Pessoas e Cidades, citando o exemplo de São Francisco, que está localizada numa falha geográfica e suscetível de abalos sísmicos, o que pode ser motivo ao mesmo tempo de medo e excitação:

Assim também são as pessoas interessantes: têm falhas. Pessoas perfeitas são como Viena, uma cidade linda, limpa, sem fraturas geológicas, onde tudo funciona e você quase morre de tédio.
Pessoas, como cidades, não precisam ser excessivamente bonitas. É fundamental que tenham sinais de expressão no rosto, um nariz com personalidade, um vinco na testa que as caracterize.
Pessoas, como cidades, precisam ser limpas, mas não a ponto de não possuírem máculas. (...)
Pessoas, como cidades, têm que funcionar, mas não podem ser previsíveis. De vez em quando, sem abusar muito da licença, devem ser insensatas, ligeiramente passionais, demonstrar um certo desatino, ir contra alguns prognósticos, cometer erros de julgamento e pedir desculpas depois, pedir desculpas sempre, pra poder ter crédito e errar outra vez.
Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa vontade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, generosas e abrir suas portas, devem nos querer fazer voltar, porém não devem nos deixar 100% seguros, nunca.uma pequena dose de apreensão e cuidado devem provocar, nunca devem deixar os outros esquecerem que pessoas, assim como cidades, têm rachaduras internas, portanto, podem surpreender.

domingo, 17 de abril de 2005

Martha Medeiros

Adoro a Martha Medeiros, seu jeito de escrever simples, direto, interessante! Andei revisitando hoje sua coluna e achei esse texto abaixo, muito legal!

Pegação
15 de novembro de 2004

Eu vou pegar uma caneta e já anoto seu número.
Eu vou pegar o próximo ônibus.
Eu vou pegar um copo d´água pra você.
Eu, bro? Vou pegar uma mulher!!! Duas, se bobearem...
Ah, língua portuguesa, que flexibilidade. O tempo passa e o nosso vocabulário muda, se expande, se transforma, ganha novos e riquíssimos significados, como este agora: pegar mulher. Aliás, pega-se homem, também.
É natural que garotos e garotas saiam pra noite querendo se dar bem, conhecer pessoas, ter uma história, um romance, uma ficada, duas ficadas, três ficadas, quatro ficadas... esquece, a partir daí já não acho natural coisa nenhuma. Acho um desperdício de energia. Pegar quatro caras. Pegar cinco minas. A gente está falando de quê, de catadores de lixo?
Parece.
Não se trata de caretice, mas de adequação. Pegar, pega-se coisas. Não gente. Coisas. Bonecos infláveis, que podemos segurar, tocar, lamber e descartar 10 minutos depois. Coisas. Produção industrial, sentimento nenhum, envolvimento zero. Coisas. Objetos inanimados. Sem voz, sem idéias, sem vida. Coisas. Pegue-e-leve, pegue-e-largue, pegue-e-use, pegue-e-chute, pegue-e-conte-para-os-amigos-depois. Pegar, cá pra nós, é um verbo muito cafajeste.
Tudo bem experimentar sensações diversas, conhecer de tudo, exercitar a sexualidade, mas em vez de "pegar", poderíamos empregar algum outro verbo menos frio e automático. Porque, quando duas bocas se tocam, nada é assim tão frio e automático, na maioria das vezes a naturalidade é forçada, é a turma que dita as regras e exige que todos se comportem igual, então vão todos para a balada fingindo que deixaram o coração em casa, mas deixaram nada. Deixaram a personalidade em casa, isso sim.
Mas o que uma tia como eu pode fazer contra o avanço (avanço??) dos costumes e a vulgarização do vocabulário? Sou do tempo em que pegava-se uma carona, um avião, uma gripe. Quando o assunto era relação, por mais frágil e rápida que fosse, ninguém estava pegando ninguém. Ao contrário, estava todo mundo se soltando

domingo, 27 de março de 2005

O amor é difícil. O amor de duas criaturas humanas talvez seja a tarefa mais difícil que nos foi imposta, a maior e última prova, a obra para qual todas as outras são apenas uma preparação.

(Rainer Maria Rilker)

sábado, 19 de março de 2005

Estou lendo o livro do Jabor, ele escreve muito bem. Mais ainda, ao ler algumas crônicas sinto-me feliz porque meu romantismo não é tolo e inexistente. Ok, pode até ser tolo, mas existe, ainda que perdido nas lembranças ou sentimentos de alguém que sequer conheço, mas que em cujas palavras me reconheço:

O amor cria momentos em que temos a sensação de que a ‘máquina do mundo’ se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grandes beijos – eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores e tudo parece decifrado. Mas não se decifra nunca, como a poesia. O amor é uma tentativa de atingir o impossível, se bem que o ‘impossível’ é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.
Mas o fundo e inexplicável amor acontece quando você ‘cessa’ por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é, e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de ‘compaixão’ pelo nosso desamparo.” (Arnaldo Jabor, Amor é Prosa Sexo é Poesia)

domingo, 6 de março de 2005

Before Sunset... ainda!!!

Ainda no embalo do post anterior, reproduzo o final da crítica de Martha Medeiros sobre o filme:

E se o que faz o amor sobreviver for justamente a falta de convivência e rotina? Quem apostaria num amor apenas idealizado? E se a nossa intuição for mesmo a melhor conselheira e não merece ser desprezada? E se nossas lembranças nos traírem? E se casamento nenhum for mais importante do que um único encontro?
O cinema pode colocar pessoas desafiando a gravidade, cortando o pescoço uns dos outros, fazendo o tempo andar pra trás, e eu não me emocionarei nem ficarei perplexa, mas me dê um pouco de realidade e isso me arrebata.

sábado, 25 de dezembro de 2004

Índio quer apito - Por Ana Kessler


Passei por uma vitrine num shopping e um urso me abanou. Pisquei duas vezes, um urso, no Brasil? Isso mesmo. Ele virou para o outro lado, mecanicamente, levantou o braço outra vez, e deu outro tchauzinho. Ficou assim, daqui pra lá, de lá pra cá, girando sobre a própria cintura, fazendo a alegria da criançada. Floquinhos de neve caíam do teto, guirlandas imitando pinheiros espalhavam-se pelos cantos, esquilos faceiros faziam poses em troncos de lenha, segurando nozes. Até uma rena, em tamanho natural, voava suspensa num dos cantos do cenário. Muito bonito, mas patético.
Todos os anos, vejo passar aqueles filmes na tevê onde crianças embrulhadas em grossos casacos, gorros e cachecóis, fazem guerra de bolas de neve, escrevem com os dedos em janelas embaçadas pelo frio, ficam em volta da lareira, cantando Jingle Bells, pendurando mashmellows coloridos em forma de bengala em pinheiros cuneiformes, ou colocando suas pesadas botas na janela para amanhecerem cheias de presentes. Todos os anos, eu fico cá me perguntando: porque será que ainda insistimos em reproduzir um Natal que não tem nada a ver com o nosso?
Natal no Brasil é sinônimo de calorão, suador, roupa grudando no corpo. Até onde eu saiba, não há neve que resista a 30ºC na sombra. Por que não divulgar, nos anúncios publicitários, em vez de ringues de patins sobre lagos congelados, um bom tobogã numa gigantesca duna de areia que se acaba dentro de águas cristalinas no mar? E se trocássemos o chocolate quente pela água de côco, a botina por um chinelo de dedo, os duendes do Bom Velhinho por vários Sacis Pererês?
Tender, chester, panettone, pistache, não entendo pra que tanto estrangeirismo. Tudo bem, são quitutes deliciosos, não estou reclamando. Eu também compro, como, e gosto. Mas por que não servirmos, com o já incorporado peru, um belo bolo de fubá ou um delicioso cuscuz, bolo de milho, que fosse? Em vez de sodas, sucos. Em vez de amêndoas, castanhas de caju. No lugar de frutas cristalizadas, frutas frescas. Papai Noel aqui devia ser um índio cacique sentado numa carroça puxado por, no máximo, antas. Sabiás, araras, papagaios, onças pintadas, macacos pregos, tamanduás-bandeira, esses deveriam ser os animaizinhos a enfeitar as lojas. Ah, quanto exotismo desperdiçado...
A única coisa do Natal que me consola é o Presépio. Esse sim, é um símbolo que nos representa. Um pobre marceneiro, que puxou um pobre burrico com uma pobre moça barriguda até uma estrebaria, onde na palha, no chão, pariu uma pobre criança iluminada. Cercada de bois, vacas e toscos presentes de magros reis, nasceu aquele que transmitiu à humanidade palavras de esperança e fé. Acho que nós brasileiros somos assim, pobres crianças iluminadas, abençoadas por uma estrela guia, a contagiar de alegria um mundo de ilusões.